Meu país está dividido

Guilherme Bandeira. Objetos Inanimados
Guilherme Bandeira. Objetos Inanimados

Eu nasci em São Paulo, o estado mais rico e politicamente mais conservador do Brasil. Tinha sete anos de idade em 1984, quando mais de 1 milhão de pessoas se reuniram no centro da minha cidade exigindo o direito de votar para presidente da República. Quando meu pai, um engenheiro civil pernambucano, chegava em casa à noite, eu tinha separadas uma série de perguntas: “Por que o Brasil é governado por generais?”; “Por que não podemos escolher nosso presidente?”; “Por que, antes do programa de TV que eu mais gosto, aparecem avisos da Censura?”.

Essas perguntas fizeram com que eu me tornasse uma pessoa com espírito questionador. Não por acaso, escolhi estudar Jornalismo na PUC-SP. Aos 19 anos tornei-me estagiária em um jornal impresso – coisa que parece antiquada hoje em dia mas, nos anos 1990, era o máximo!

Ao me formar, fui trabalhar em revistas, a minha grande paixão. Nos anos 2000, quando vários de meus colegas migraram para a internet, eu me perguntava se revistas e jornais um dia iriam acabar e eu iria ficar sem emprego. Mas o que acabou, na verdade, foi o meu tesão pelo Jornalismo.

Eu queria escrever sobre política, economia e problemas sociais. Mas a mídia brasileira havia entrado naquela fase de só falar sobre reality shows, fofocas e celebridades.

Decidi, então, fazer mestrado em História. Minha pesquisa foi sobre como o cinema brasileiro retrata a ditadura militar. O ponto de partida foi o filme “Batismo de Sangue”, dirigido por Helvécio Ratton.

Baseado no livro homônimo de Frei Betto, “Batismo de Sangue” narra como, nos anos 1960, membros da Ordem dos Dominicanos no Brasil deram apoio ao movimento estudantil e a jovens que, inspirados por Che Guevara, decidiram aderir à luta armada para tentar acabar com a ditadura.

Durante a pesquisa, passei a me interessar sobre a Guerra Fria, conflito que ajuda a explicar o Golpe de 1964, que derrubou o presidente João Goulart. E foi essa pergunta que me trouxe a Universidade de Georgetown.

Sob a orientação do Professor Bryan McCann, eu pesquiso como o telejornal brasileiro “Repórter Esso”, da TV Tupi (1952-1970), transmitia os acontecimentos relacionados à Guerra Fria. Esse programa era patrocinado pela empresa norte-americana Standard Oil Company, e tinha versões para rádio e televisão em 16 países, desde o México até o Chile!

Na sua versão televisiva, o “Repórter Esso” era um “newsreel” similar a filmes de propaganda de Frank Capra. Sua função era convencer os latino-americanos de que a melhor opção era permanecer no bloco capitalista, e não se unir “aos vermelhos”, como eram chamados os países comunistas.

Tudo isso aconteceu no tempo da Guerra Fria, que dividiu o mundo em dois blocos antagônicos por quase 50 anos. Houve países em que essa divisão se tornou muito concreta, separando populações, como no caso da Alemanha, Coreia e Vietnã. E agora que estamos falando em países separados por conflitos ideológicos, me vem à cabeça o Brasil.

Há duas semanas, milhares de brasileiros foram as ruas para protestar. Diferentemente das manifestações ocorridas em junho de 2013, que eram apartidárias e refletiam o desejo do povo brasileiro por mudanças, as de 2015 tinham influência direta de dois partidos políticos.

Na sexta-feira 13, quem se manifestou foram as pessoas que apoiam o PT, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da nossa atual presidente, Dilma Rousseff. No domingo 15, foi a vez de saírem as ruas as pessoas que apoiam o PSDB, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do senador Aécio Neves. Aparentemente, tudo muito civilizado e democrático. Mas quem estava em São Paulo e no Rio de Janeiro – como minha família e dezenas de amigos – viu que o clima era de tensão e enfrentamento.

Desde as eleições de outubro de 2014, quando as urnas apontaram a vitória de Dilma sobre Aécio com 51,64% dos votos válidos, petistas e tucanos têm protagonizado brigas, barracos e manifestações de ódio generalizadas. Basta alguém sair à rua com uma camiseta vermelha, que é a cor do PT, para ouvir xingamentos. Há até um grupo chamado Revoltados Online, que prega que “o Brasil vai virar uma nova Cuba” e vende “kits impeachment”.

Na manifestação de domingo, os manifestantes vestiram a camisa da seleção brasileira. Mas o ex-jogador Ronaldo Fenômeno apareceu com uma camiseta onde se lia “Eu votei no Aécio”. A frase revelou o real motivo do protesto: as pessoas ali reunidas ainda não digeriram o fato de que o seu candidato foi derrotado nas urnas por Dilma Rousseff.

O instituto Datafolha afirma que 82% das pessoas presentes ao protesto do dia 15 votaram em Aécio Neves. O próprio Neves apareceu na sacada de seu apartamento na praia do Leblon, no Rio de Janeiro, e fez um discurso. Ele quer o impeachment de Dilma e a cassação do registro do PT.

No dia seguinte, foi a vez de Dilma se pronunciar. Ela disse que valeu a pena lutar pela democracia. A presidente se referia ao período da ditadura, quando no Brasil era proibido criticar o governo. No seu discurso havia uma tentativa de se reconciliar com eleitores de Aécio. “Eu fui eleita para governar para os 203 milhões de brasileiros”, disse.

Na semana passada, o clima de polarização chegou ao Congresso. O ministro da Educação, Cid Gomes, foi chamado a explicar porque disse que alguns deputados e senadores da base aliada ao governo Dilma (PMDB, PP, PR, etc.) se comportam como se fossem da oposição.

No plenário, Gomes reafirmou que os deputados e senadores eleitos em outubro de 2014 têm usado seus mandatos para “emparedar o governo, obrigando-o a acatar suas demandas, desejos e vaidades, ainda que em prejuízo da sociedade brasileira”. “Os partidos aliados que não saem em defesa da presidente Dilma deveriam largar o osso e partir para a oposição”, bradou. Em seguida, ele entregou seu cargo de ministro.

O episódio demonstra que o clima de guerra que vemos nas ruas também atinge a Câmara e o Senado, onde velhas raposas disputam verbas e cargos no governo federal (além, é claro, da atenção da mídia).

Daqui de Washington D.C. eu torço para que essa disputa ideológica que hoje divide o Brasil entre “Dilmistas” e “Aecistas” se torne menos agressiva. Afinal, divisão de países em blocos inimigos é coisa da Guerra Fria…

Sara Duarte Feijó is a PhD student at Universidade de São Paulo (USP), Brazil. Since September, she is a Fulbright visiting researcher at Georgetown. Sara worked as journalist during 16 years and has written two books: “Batismo de Sangue: Entre a Fé e a Ação Revolucionária” and “Revistas de Luxo: o Fascinante Mundo da Mídia AAA”.

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One thought on “Meu país está dividido

  1. o povão vai começar a sentir as perdas de direitos sociais básicos
    e vão ligar isso à corrupção
    e vão ligar a corrupção ao Pt por conta da mídia
    e vão ligar o Pt à esquerda.

    a esquerda deveria começar a divulgar com alta intensidade que o que leva a maior parte das verbas federais é o pagamento de juros da dívida para banqueiros privados.

    e que na Ditadura havia muita corrupção, pois o povão vai procurar o “pai salvador” e vai ser um general

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