Relacionamento Brasil e Japão

Em 2006, Brasil e Japão assinaram um memorando de entendimentos relativo à introdução do sistema digital japonês de televisão e ao aprimoramento da indústria elétrica e eletrônica relacionados ao sistema de televisão no Brasil. Em virtude do acordo, um extenso estudo visando à concretização do crescimento sustentável da indústria de semicondutores no Brasil revelou a necessidade de capacitar os recursos humanos que possam construir e impulsionar a indústria, bem como a indispensabilidade da consolidação de uma infraestrutura para estimular o mercado de semicondutores,  primordialmente a do fornecimento de energia elétrica. Em consequência, em termos de transferência de conhecimentos, algumas centenas de engenheiros vem recebendo treinamentos intensivos tanto pela iniciativa privada japonesa quanto pelo Governo do Japao sob o título “IC Brazil[i]”.

O vínculo existente entre os dois paises é centenário e data do ano de 1895, com o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação, e completa 120 anos no ano corrente. Em homenagem a esse importante relacionamento, uma pequena reflexão poderia ser elaborada tendo como pano de fundo a história de progresso do Japão e o relacionamento de longo prazo entre os dois países.

A Revolução Meiji em fins do seculo XIX foi o catalizador da transição de um país completamente isolado economicamente e desunido socialmente para uma nação unida e altamente desenvolvida. Obviamente existiram contextos externos, tais como a Guerra Fria e abertura do mercado norte-americano pós IIGM, que colaboraram para o crescimento e o desenvolvimento econômico, porém, a ênfase aqui está na unidade da população, governo e indústria japonesa visando a atingir objetivos únicos: a melhoria do bem-estar da população e o desenvolvimento sustentável do país. Esta união aconteceu nos mais diversos setores: indústria pesada, indústria química, eletroeletrônica, TI, automobilística, educação, entre outros; na qual cada individuo se responsabilizou pela sua função específica na sociedade, contribuindo para o progresso, independentemente da hierarquia, muito mais cientes da importância do esforço e da participação individual para o bem comum. Tais esforços se materializaram com a criação de sistemas produtivos Just in Time (JIT), kaizen ou Melhoria Continuada, Qualidade Total, entre outros princípios de gestão implementados no dia-a-dia nas indústrias e empresas de maneira consistente. E em fins da década de 70, o Japão já era reconhecido como uma potência asiática e a segunda maior economia mundial.

A trajetória do progresso do Japão encerra lições ao Brasil e aponta caminhos de longo prazo a serem percorridos, consistentemente, pelos setores público e privado. Uma delas, a de firmar parcerias estratégicas entre centros de tecnologia industrial brasileiros conectados com os centros no Japão e outros países no exterior, a exemplo do acordo em vigor na indústria de semicondutores no Brasil. Uma outra seria a internalização da engenharia japonesa ou estrangeira que, no longo prazo, possibilitaria alterar a estrutura da indústria eletroeletrônica e tecnológica brasileira de montadora a planejadora e produtora de bens. Uma experiência de sucesso em que houve essa parceria foi a implantação e consolidação do complexo siderúrgico da Usiminas. A empresa  hoje atende mercados de alto valor agregado, como a indústria naval, automobilística e de máquinas e equipamentos e é responsavel por uma significativa participação nas exportações brasileiras. Portanto, no mundo interligado e globalizado de hoje, isolar-se e reinventar a roda seria um esforço desnecessário. Ademais, as oportunidades de investimento na indústria eletrônica estão condicionadas por contínuas mudanças tecnológicas e pela competitividade associada  à intensa inovação, e a única certeza que temos é que as tecnologias continuarão a evoluir rapidamente e o mercado será suprido por produtos constantemente renovados globalmente.

Com a abundância de recursos naturais e de mão de obra, e com as parcerias comerciais estratégicas, o Brasil teria todas as condições de estar na liderança desse processo. A chave para a identificação e a exploração de oportunidades como essa, que beneficiam a indústria brasileira estará condicionado, sem dúvida, à união da população, do setor público e privados brasileiros; ao equilíbrio entre uma mentalidade político-ideológica desenvolvimentista e a mentalidade empreendedora do livre mercado. O Japão pós-Meiji  encerra lições de que um país unido com uma direção clara e consistente são condições fundamentais para atrair investimentos e sustentar o desenvolvimento de longo prazo.

Norie Ogata is a second year MALAS student at Georgetown University. 

[i] O Governo Brasileiro, atraves do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação, estabeleceu em 2006 uma ação visando estimular inserir o país na area de semicondutores. O IC-Brasil inclui um ecossistema envolvendo o intenso uso de capital humano e esta relacionado com a interação e colaboração entre governo, indústria, comunidade digital e Universidades. Em 2008, Brasil e Japão formalizaram um Acordo em que o Japão se compromete a apoiar o Brasil nesse esforço contribuindo com o treinamento de recursos humanos especializados na área.

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