O Preço da desonestidade

Sobre o Lula ser intimado a depor: Acho ótimo. Assim como boa parte da esquerda consciente que reconhece que não há mais como defender o Partido dos Trabalhadores, o qual hoje nada representa. Não vou entrar no mérito da seletividade midiática e popular ao ignorar o fato de Aécio Neves ter sido delatado ao mesmo juiz que intimou Lula a depor, Sergio Moro, por seu envolvimento direto com recebimento de propina em Furnas. Também não entrarei no mérito de que Eduardo Cunha continuará sendo o presidente da câmara dos deputados mesmo se tornando réu por corrupção, lavagem de dinheiro e por ter contas secretas na Suíça. Fazer vista grossa a esse tipo de corrupto se tornou aceitável, contanto que eles estejam ao lado do “povo” na luta para derrubar Lula e Dilma.

lula
Photo credit: 

Diante desse cenário, eu, como brasileira e entusiasta de América Latina e política, gostaria de compartilhar os possíveis impactos da deterioração da esquerda na nossa região. Eu vim de uma família da qual minha mãe, descendente de pobres imigrantes italianos, teve uma infância muito dura tendo de trabalhar desde adolescente para ajudar meus avós. Meu pai também teve sua infância roubada ao crescer no bairro da cachoeirinha em São Paulo, acordando às 4 da manhã para fazer tijolo com o pai e os irmãos. Por outro lado, eu e meu irmão nunca fomos expostos a nenhum tipo de dificuldade. Não sabemos o que é estudar em uma escola pública, ou enfrentar filas de hospitais públicos. Sempre tivemos mais do que precisávamos. No entanto, crescemos sabendo da triste infância de nossos pais e dos milhões de brasileiros que ainda viviam naquelas condições (nos melhores dos casos).

Lembro-me do meu pai, micro empresário, que batalhou a vida inteira para que eu e meu irmão nunca passássemos pelo que ele passou, dizendo que não se importava de pagar altos impostos se os mesmos fossem destinados àqueles que mais precisavam. Esse pensamento me moldou. Quanto vale meu conforto e tranquilidade financeira se nos confins do meu país há um povo que vive numa situação de miséria inconcebível? Quando o Lula foi eleito, meu coração de 12 anos de idade se encheu de esperança. Enquanto muitos não suportavam a ideia de ver um nordestino que nunca havia completado sua educação ser presidente da Republica, eu não conseguia conter o meu orgulho. Agora era a vez de o povo brasileiro ter uma agenda voltada e governada por um de seus semelhantes. Antes de Lula, se analisarmos rapidamente a história do Brasil, entenderemos o porquê de Asa Branca de Luiz Gonzaga ter se tornado um hino do povo nordestino. Na época em que Getúlio Vargas era a “mãe do rico e o pai dos pobres” ele se esqueceu de uma região chamada Nordeste. Assim como ele, os seguintes presidentes, principalmente os que governaram durante a ditadura, contribuíram para o crescimento econômico do país, o que, todavia, nos custou um aumento drástico da desigualdade.

É aí que Lula entra. Uma vez que desenvolvimento e desigualdade andam em direções contrárias, qual é o benefício de se viver num país onde a distribuição da renda é extremamente desigual? O que é crescimento econômico, se a miséria não diminui? O que é avanço se a pobreza persiste? Se ainda tem gente que não entende o que o PAC e o Bolsa família revolucionaram no país e reproduz o típico discurso débil de que “quem dá o peixe não ensina a pescar” é porque não tem o mínimo de conhecimento dos efeitos desse programa na vida dos que vivem às margens da sociedade e também do impacto dos mesmos na economia do país. A título de ilustração, 22 milhões de pessoas saíram da miséria, houve uma redução 65% da mortalidade infantil e 41% da desigualdade na educação. Sem mencionar a oportunidade de negros e pessoas de baixa renda de ingressarem no ensino superior com as cotas e o Pro Uni. E sim, você ganhou com isso também. O Bolsa Família, ao contrário do que muitos pensam, contribuiu para um aumento expressivo do PIB devido seu efeito multiplicador. Se hoje o Brasil faz parte da agenda mundial e tem notoriedade na política externa foi pelo desempenho do governo Lula. Se hoje, as melhores universidades do mundo estão criando programas de estudos brasileiros, é porque o seu país virou exemplo de crescimento e desenvolvimento nos últimos 15 anos e daqui de fora é desse ângulo que o Brasil é visto, como um líder da América Latina. Hoje, aquela menina de 12 anos que sentiu no coração uma esperança de um país menos miserável e desigual ao ver Lula sendo eleito, é um produto dessa história. A história do meu país, e da maior parte dos países latino americanos, é o que me trouxe até Washington para entender o que faz da nossa região viver uma solidão que nos é intrínseca; onde a falta de desenvolvimento e avanço assombra a todos, mas não igualmente.  A título de curiosidade, em 11 de setembro de 1973, o golpe promovido por uma elite desonesta e patrimonialista matou o primeiro presidente que se propôs a fazer uma verdadeira reforma agrária no Chile. Salvador Allende era a esperança de milhões de campesinos que nunca puderam trabalhar e se sustentar de suas próprias terras. Pinochet se apropriou de quase 500 mil hectares e doou mais um milhão para empresas imobiliárias. Em 1980, ele consolida não só sua contrarreforma como também o estigma da nossa região de que quem tem terra faz a lei. Durante esse período ditatorial, 20 milhões de crianças latino-americanas morreram antes de fazer dois anos. Vivemos 17 anos de ditadura no Chile, 21 anos no Brasil, 7 na Argentina- a mais sanguinária de todas- causados por uma poderosa minoria que, como a história já ensinou, fará de tudo para que os subalternos continuem na miséria e no esquecimento. Vivemos hoje da memória de uma esquerda que um dia existiu e nos trouxe a esperança de uma democracia e uma América Latina construída por indivíduos que nunca tiveram a chance de prosperar em suas próprias terras. Hoje, Lula faz parte de uma esquerda que eu acreditei e que não existe mais no Brasil. O brasileiro se encontra sem representatividade não só de uma esquerda como de uma direita honesta. Desde a volta de democracia no Brasil, vivemos um bipartidarismo num país de mais de 30 partidos políticos que não conseguem atender as nossas demandas.

Interessantemente, nota-se hoje a inversão de valores que nunca pensei ser possível. Norte Americanos, com o intuito de evitar o horror de ver Donald Trump chegar ao poder, estão dando seu voto de confiança a um esquerdista como Bernie Sanders, o qual desde o início de sua carreira política consolidou seus valores e lutou contra corporações. Pesquisas apontam que Sanders, um socialista, ganharia de 12 pontos percentuais caso disputasse as eleições contra Trump. Enquanto isso, na América Latina, presenciamos o oposto. O povo esta dando mais uma chance à direita como no caso de Macri na Argentina e, provavelmente, daqui dois anos no Brasil. Isso nos mostra o tamanho da insatisfação com os últimos governos liberais que ocorreram na região. Vivemos hoje não o golpe da direita, mas sim de uma esquerda de líderes que um dia nos deram esperança de um país mais justo, mas que e se aliam a políticos como Collor, Maluf e Sarney em troca de governabilidade. Líderes que ao invés de lutarem contra a corrupção, se usam dela para alcançar o poder.  Apesar de tudo, eu não irei desistir dos meus ideais e nem da verdadeira e honesta porcentagem da esquerda brasileira que continua lutando para as minorias e para o sonho de um país mais desenvolvido e menos desigual.  Eu apenas espero que não nos esqueçamos da onde uma pequena e gananciosa parcela de muito poder já nos levou ao prometer “ordem e progresso”: a um mundo no qual, como previu Gabriel García Márquez “as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra.”

Fontes: Luis Henrique Paiva, Tiago Falcão e Letícia Bartholo, Ministério do desenvolvimento social e Revista Exame.

Sabrina Fantoni is a journalist born and raised in São Paulo, Brazil. She is a first year in the Master’s of Latin American Studies (MALAS) in the School of Foreign Services at Georgetown University concentrating in development, and is the MALAS representative for Georgetown Women in International Affairs.  She has worked with corporate communication and provided Portuguese translation for an export company in Washington DC. She is interested in Politics, gender issues and development, but mainly passionate about music, soccer, literature and Brazil.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s